quinta-feira, 16 de setembro de 2010

precisando emagrecer ?



Esqueça as fórmulas milagrosas.
Quem está acima do peso costuma recorrer aos remédios para emagrecer, que provocam mais prejuízos do que benefícios para a saúde, muitas vezes devido ao abuso dos próprios pacientes. Dieta equilibrada e exercício físico ainda é a melhor combinação contra o excesso de peso.

Dietas e exercícios físicos ou remédios. Qual é a melhor receita para emagrecer? A resposta pode parecer simples, mas está longe de ser. Quando se trata de emagrecimento, há soluções diferentes para casos diferentes. Mas a opção do brasileiro normalmente descamba para o aparentemente menos sacrificante e certamente o mais arriscado. Por essa razão, o Brasil continua campeão no consumo de inibidores de apetites.

Um relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) das Nações Unidas, divulgado este ano, revela que 13 entre mil brasileiros consomem anorexígenos contra nove americanos para o mesmo universo. Aqui, o consumo de femproporex, anfepramona e mazindol (os princípios ativos dos inibidores de apetite mais usados no mundo) é 40% mais alto do que nos Estados Unidos. Os números ficam mais assustadores quando se incluem os outros tipos de remédios. Segundo pesquisa da IMS Health, empresa responsável pela auditoria da indústria farmacêutica, em 2006 foram vendidas mais de 5,3 milhões de embalagens de medicamentos para emagrecer nos balcões das drogarias, sem contar as fórmulas manipuladas em farmácias magistrais.

Mas será que é necessário tomar remédios para atingir o peso ideal? As diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o controle da obesidade recomendam o uso apenas para pacientes com um Índice de Massa Corporal (IMC) maior que 30 ou 25 com alguma doença associada, como diabetes, hipertensão ou colesterol alto. “Eles podem ser consumidos nesses casos, mas sempre com acompanhamento médico constante”, afirma o Walmir Coutinho, presidente da Federação Latino-Americana para o Estudo da Obesidade. Só que o medicamento sozinho não faz milagre. “A melhor maneira de emagrecer é associar o tratamento a uma dieta equilibrada e à prática de exercícios físicos”, garante o endocrinologista.

Nesta reportagem, médicos e usuários dos remédios dão dicas e depoimentos sobre o uso dos inibidores de apetite: a prescrição correta, os efeitos colaterais, a ineficácia comprovada e os perigos escondidos nas tais fórmulas apresentadas como naturais.

Guerra com a balança

Ana* é uma administradora de empresas de 32 anos, que toma produtos emagrecedores desde os 15 anos. Sem sucesso. A sua última experiência foi em outubro, quando uma amiga indicou um complexo emagrecedor à base de vegetais. Ligou para o fornecedor, fez o pedido e recebeu a encomenda em casa: um frasco com 60 drágeas, cujo rótulo traz a indicação de substâncias naturais como kava-kava, erva de São João, passiflora e erva cidreira. A prescrição, receitada pela vendedora e não por um médico, foi a de tomar duas no café-da-manhã e duas à tarde. Em dois meses, o peso baixou de 60kg para 55kg, mas desistiu do tratamento. “Tinha muita dor de cabeça, não dormia direito e comecei a ter lapsos de memória. Tenho certeza que é anfetamina”, conta. Com a interrupção, engordou 10kg.

A história de Ana resume bem o perfil das pessoas que recorrem a medicamentos que prometem emagrecimento rápido e sem limitações de dieta. A maioria delas está dentro da faixa de peso considerada normal ou com cinco, seis e até 10kg a mais, possíveis de serem eliminados com mudanças na alimentação e atividade física. Nesses casos, em que o problema se resume à estética, questiona-se a conveniência de usar ini-bidores de apetite.

Eles só são indicados para pessoas com 20, 30, 50kg acima do peso ideal, que podem ter problemas de hipertensão, colesterol alto, dificuldades para andar ou propensão a diabetes, segundo Newton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo — regional do Distrito Federal. Como a obesidade é uma doença, dependendo da sua gravidade, precisa de remédios para ser controlada. “Se bem indicados e com acompa-nhamento adequado, podemos dizer que o uso desses medicamentos é seguro”, diz o médico.

*Nome fictício a pedido da personagem

NOVAS REGRAS

Para coibir o abuso de inibidores de apetite, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou o controle da venda desses remédios nas drogarias e farmácias de manipulação. Criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados. Kleber Pessoa de Melo, gerente de monitoramento e fiscalização da Anvisa, explica que, pelo novo programa, as informações sobre a receita e a compra serão registradas online, no ato da compra. “Será possível acompanhar, com mais rapidez, qualquer mudança de padrão na venda dos medicamentos controlados”, garante. As farmácias de manipulação de todo o país e drogarias das regiões Sul e Sudeste e do DF adotarão o sistema em setembro. Os estados do Centro-Oeste e Nordeste, em outubro, e os do Norte, até março.

Riscos do abuso

Segundo o Ministério da Saúde, o problema do excesso de peso no país é mais grave do que a fome. Calcula-se que 50% da população brasileira esteja com quilos a mais do que deveria. São cerca de 70 milhões de pessoas com sobrepeso (IMC entre 25 e 30) e 18 milhões de obesos (IMC maior que 30). “Às vezes, essas pessoas precisam de remédios, juntamente com dieta e exercícios, para controlar a obesidade”, afirma Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia.

Ele explica que as drogas usadas no tratamento da obesidade são de quatro grupos, com diferentes mecanismos de ação. Os que trazem as substâncias anoréticas e a sibutramina agem inibindo o apetite ou aumentando a saciedade. Há também os inibidores que impedem a absorção de 30% da gordura ingerida. “É uma mentira quando se fala na utilização de anfetaminas nesses remédios ou fórmulas. Femproporex, anfepramona e mazindol são drogas anorexígenas, que inibem a fome, e não derivados anfetamínicos”, garante Ribas.

O nutrólogo explica que as anfetaminas são drogas sintéticas usadas como estimulantes. Apenas dois tipos — metilfenidato e metanfetamina — têm a comercialização liberada no país. O seu uso se restringe ao tratamento de quadros severos de narcolepsia (doença caracterizada por períodos de sono breves, repetidos e incontroláveis) e de hiperatividade. Também são conhecidas como rebite, bolinha, ice e ecstasy. “Claro que há consumo sem controle, principalmente por caminhoneiros e jovens”, argumenta.

Seja anfetamina ou não, remédio é remédio e, por isso, tem riscos. O endocrinologista Walmir Coutinho explica que os efeitos colaterais variam conforme o tipo. Entre os inibidores de apetite, predominam os decorrentes do estímulo cerebral como nervosismo e insônia. Entre os estimulantes da saciedade, são mais freqüentes a boca seca, a constipação intestinal e a insônia. Já os inibidores de absorção das gorduras, quando não associados a um plano alimentar equilibrado, podem causar diarréia. As doses devem ser limitadas. “Não se deve ultrapassar dose diária de 25mg de femproporex, 2mg de mazindol ou 75mg de anfepramona”, resume Newton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo no DF.

CUIDADO COM OS SUPLEMENTOS ALIMENTARES

As substâncias inibidoras de apetite estão presentes de forma clandestina na produção de alguns tipos de suplementos alimentares. Recentemente, os jogadores Dodô, do Botafogo, e Jaqueline Carvalho, da Seleção Brasileira de Vôlei, foram surpreendidos com o resultado de exames antidoping que revelam a presença de produtos proibidos no teste da urina. Os dois acreditavam estar consumindo produtos naturais.

Suspenso por 120 dias, Dodô tomava um suplemento alimentar à base de cafeína, mas na fórmula foram encontrados traços do inibidor de apetite fenproporex em seu organismo. Jaqueline também foi pega no exame antidoping. O exame da atleta também acusou a presença da sibutramina, um outro tipo remédio emagrecedor. Em sua defesa, a jogadora de vôlei culpou um tipo de chá verde contra celulite que tomou durante três dias.

Sofrimento e aprendizado

Com depressão, desnutrição e anemia, Renata desistiu dos medicamentos.

Os inibidores de apetite ajudam no emagrecimento rápido e cobram um preço bem alto pela sua eficácia. O melhor método para perder peso é diminuir a quantidade da comida, eliminando doces e excessos de massas, e se exercitar diariamente. A cabeleireira Renata Nascimento, 30 anos, aprendeu essa lição depois de muito sofrimento. Em 1997, ela ficou grávida, engordou 33kg e chegou a pesar 91kg. Muito para quem mede 1,67m.

Depois do parto, emagreceu apenas 8kg e, quatro meses depois, preocupada com a obesidade, procurou um médico. “Ele receitou um remédio chamado Isomeride, para tomar antes do almoço e do jantar. Em 40 dias, perdi 23kg”, conta. A cobrança dos efeitos colaterais do produto foi exorbitante. Renata perdeu totalmente o apetite, alimentando-se apenas de sopa de cebola e nabo, bolachas de água e sal e suco de caju. Sentia-se dopada, tinha vertigens e taquicardia, e perdeu o cabelo. “Sem fome, fiquei desnutrida, anêmica e parei de produzir leite materno. Decidi então interromper a medicação”, lembra a cabeleireira.

Resultado: entrou em uma crise depressiva e engordou 10kg em três meses. Naquele mesmo ano, o Ministério da Saúde retirou do mercado o Isomeride, nome comercial da dexfenfluramina, ao comprovar que a droga causava lesões nas válvulas cardíacas e hipertensão pulmonar primária. Depois de aprender a dura lição, Renata procurou uma nutricionista em 2001, fez a reeducação alimentar e iniciou um programa de atividades físicas. “Essa é a receita para ter um peso ideal”, garante ela, que na segunda gravidez, em 2003, engordou 30kg e emagreceu novamente seguindo esse esquema. Hoje, com 60kg, come de tudo, caminha diariamente e só libera chocolate, sorvetes e frituras nos fins de semana.

O velho efeito sanfona

A meta principal do tratamento da obesidade deve ser a mudança dos hábitos, com uma melhor alimentação e a prática regular de atividades físicas. Isso evita o efeito sanfona, como o que persegue a funcionária pública Cleide Corrêa, 42 anos, que está 30kg acima do peso ideal. Com 1,64m de altura, pesava 68kg, mas chegou a 110kg. O efeito sanfona marca a vida de Cleide há 14 anos, desde que a moça de 28 anos e com o corpo esbelto começou a ganhar os quilos extras. Ela fez tudo para recuperar a silhueta da juventude: dietas milagrosas e remédios. “Conseguia emagrecer, interrompia a medicação e engordava o dobro. Estou assim hoje por culpa dessas pílulas”, afirma, indignada.

O auge da ilusão ocorreu entre 2000 e 2001, quando um médico receitou um medicamento manipulado. Ela emagreceu 7kg em 30 dias e mais 10kg em cinco meses. Sem mudar a dieta, apenas comendo menos. No sexto mês, parou, depois de sentir uma forte dor de cabeça, acompanhada de sangramento nasal e dilatação das pupilas. Em 2004, Cleide tentou novamente, desta vez com a sibutramina. Nova decepção. Seis quilos a menos em um semestre e a escalada vertiginosa aos 110kg.

Em maio, ela decidiu mudar radicalmente. Freqüenta a academia e faz reeducação alimentar: come porções menores, em seis refeições diárias, incluindo frutas e verduras no cardápio. “Só não abro mão da cervejinha. É muito sacrifício”, brinca. Aos poucos, os resultados aparecem.

COMBINAÇÕES PERIGOSAS

As tais fórmulas emagrecedoras, que combinam vários tipos de princípios ativos, são condenadas por médicos. Newton Dornelas explica que essas formulações geralmente possuem componentes contra-indicados para o emagrecimento, com a associação de hormônios, laxantes, diuréticos e antiansiolíticos ou antidepressivos. “É um crime. Essas associações são proibidas por lei”, condena. Para fugir do veto legal, alguns médicos receitam três frascos, com fórmulas diferentes: uma traz o inibidor de apetite; a segunda, produtos vegetais, laxantes, diuréticos e hormônio tireoidiano, e uma terceira, calmante. “Diuréticos e laxantes não emagrecem, eles levam à perda de peso pela perda de água e não pela perda de gordura. Hormônios tireoideanos não emagrecem ninguém, pois quando levam à redução do peso é através de perda de massa magra e não de gordura”, explica a endocrinologista Ellen Paiva. Os hormônios tireoideanos, quando ingeridos por pessoas que não têm deficiência desses hormônios, levam a um quadro de excesso de hormônios e imitam uma doença chamada hipertireoidismo.

O farmacêutico Hugo Guedes de Souza, presidente da Associação Nacional de Farmácias Magistrais (Anfarmag), rejeita as críticas que apontam as farmácias de manipulação pelo comércio abusivo das fórmulas. “O responsável pela receita é o médico. É ele que conhece o estado de saúde do paciente e pode indicar o melhor remédio. O farmacêutico produz o que determina o receituário”, defende-se.

Sem contratempos
Renata recorreu aos medicamentos, mas apenas como apoio e com acompanhamento médico e nutricional: perdeu 10kg em 11 meses.

A fonoaudióloga Renata Tschiedel, talvez por atuar na área de saúde, tomou todos os cuidados quando decidiu eliminar os quilos extras, que se acumulam principalmente na região do abdome. Com 68kg distribuídos por 1,59m, ela não é considerada obesa pelos padrões médicos, porém precisa se cuidar pois está acima do seu peso normal.

Em agosto, depois de muito pensar, Renata consultou-se com um nutrólogo, que pediu um check-up. Com os resultados em mãos, receitou um remédio à base de sibutramina. Como atua no cérebro, só é vendida nas drogarias mediante a retenção da receita.

O médico dela exigiu que a fonoaudióloga tivesse também o acompa-nhamento de uma nutricionista e voltasse ao seu consultório de 15 em 15 dias durante seis meses. “Não tive problemas de insônia, boca seca ou sensação de estar dopada. Apenas consegui controlar a vontade de co-mer certos alimentos como doces. A dieta não é radical e emagreci 10kg em 11 meses”, conta a moça, atualmente com 58kg. “O medicamento funcionou como um apoio e me conscientizou sobre a importância de ter uma alimentação equilibrada.”

DISSECANDO UMA FÓRMULA

A receita abaixo foi encaminhada ao Centro Brasileiro de Informações sobre Medicamentos (Cebrim) do Conselho Federal de Farmácia por uma pessoa preocupada com a fórmula prescrita por um médico para a mãe com o objetivo de emagrecimento. O Cebrim fez uma análise das associações medicamentosas empregadas para a formulação do remédio.
A senhora de 48 anos tem 68kg e mede 1,65m, o que resulta em Índice de Massa Corpórea (IMC) de 24,9, considerado normal.

A fórmula

Frasco 1:
4 cápsulas ao dia
• clordiazepóxido – 5,0mg
• hidroclorotiazida – 12,5mg
• fluoxetina – 10,0mg
• Triac® – 450mg
• cáscara sagrada – 15mg
• espirulina – 150mg
• marapuama – 100mg
• Fucus vesiculosos – 100mg

Frasco 2:
2 cápsulas ao dia
• dietilpropiona – 15mg

O QUE HÁ POR TRÁS DELA, SEGUNDO A ANÁLISE

• clordiazepóxido: tranqüilizante utilizado no tratamento da ansiedade, dos sintomas da retirada do álcool e de tremores. Não tem indicação para a obesidade.
• fluoxetina: antidepressivo utilizado no tratamento de distúrbios compulsivos obsessivos e em alguns casos de distúrbios alimentares.
• Triac® (tiratricol): hormônio tireoidiano, associado a ataques cardíacos e a acidentes vasculares cerebrais. Indicação para obesidade não recomendada por agências regulatórias internacionais.
• cáscara sagrada: laxante utilizado no tratamento da constipação. Não tem indicação para excesso de peso.
• espirulina: fitoterápico anorético sem evidências convincentes de eficácia e segurança.
• marapuama: Ptycopetalum olacosides, fitoterápico com dados limitados sobre a sua segurança e eficácia.
• Fucus vesiculosos: laxante utilizado no tratamento da constipação.
• dietilpropiona: anorexígeno utilizado em curtos períodos para redução de peso, efetivo quando associado a exercícios físicos e dieta com restrição de calorias. Existem relatos de efeitos adversos ao seu uso, tais como: nervosismo, insônia, irritabilidade, fraqueza, tensão, confusão, tremor, ansiedade, euforia, depressão, falta de coordenação, cefaléia, desenvolvimento de cáries, doença periodontal, candidíase oral, mal-estar, tontura, fadiga, depressão extrema, paladar desagradável, visão obscurecida, dilatação das pupilas, irritação ocular, náusea, vômito, diarréia, taquicardia e outras arritmias, hipertensão, sudorese, urticária, exantema, rubor cutâneo que ocorre em placas de tamanho e forma variáveis, sensação de ardor, depressão da medula óssea, perda de cabelo, equimose, dor no peito, febre, dor nos músculos, calafrios, ardor, dependência física ou psíquica e tolerância (necessidade de doses progressivas do medicamento para que se tenha o efeito desejado).
• hidroclorotiazida: diurético utilizado no tratamento da hipertensão e na retenção de líquidos. Não tem indicação para emagrecimento.

O QUE DIZ A LEI

O artigo 47 da Portaria 344 de 12 de maio de 1998 (da Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estabelece que “ficam proibidos a prescrição e o aviamento de fórmulas contendo associação medicamentosa das substâncias anorexígenas constantes das listas do Regulamento Técnico e de suas atualizações, quando associadas entre si ou com ansiolíticos, diuréticos, hormônios ou extratos hormonais e laxantes, bem como quaisquer outras substâncias com ação medicamentosa”. o jeito é fechar a boca...kkkkkkkkkkkkkkkkk

Nenhum comentário:

Postar um comentário

o que vc acha ?